Thursday, January 25, 2007


Sai de casa a correr, peguei na maçã, na garrafa de água fresca, e meti tudo num saco.
Ainda não eram quatro horas, mas não queria que ele ficasse à minha espera.
Cheguei mesmo a tempo, ele corria com os amigos. Estavam a sair do campo.
Acenei-lhe. Ele viu-me e correu com dois amigos na minha direcção.
Entrou no carro encharcado em suor, devorou a maçã, “embebedou-se “ com a garrafa de água. Segui o caminho que pensei que quisesse que fizesse visto que era sempre o mesmo, estávamos perto de casa, quando me pediu para encostar no meio da estrada, respondi-lhe:
- Luís, aqui não posso parar, não vês que estamos numa curva e no meio da estrada?
Respondeu-me irritado:
- Mas estás parva? Eles tem que sair aqui!- e apontou para os amigos que pensei que iam para nossa casa.
Parei um pouco mais à frente junto ao passeio, visto que não podia deixar os dois rapazes no meio daquela curva na estrada.
Prosseguimos a viagem, com ele sempre aos berros, e eu em silêncio.

Cheguei a casa chateada, eu tinha sido amorosa, levei-lhe a maçã, porque devia estar com fome, levei-lhe água porque sabia que tinha sede, fui mais cedo para ele não ficar à minha espera, e não recebi nem reconhecimento nem simpatia.
Na verdade também não tinha feito tudo aquilo para receber o seu reconhecimento, mas também não o tinha feito para receber um par de berros, sobre onde devia parar na estrada.

Nesse momento pensei em Deus, como Ele me devia compreender, Ele dá-nos tudo o que é melhor para nós, mesmo que muitas vezes não nos pareça o melhor, está Sempre ao nosso lado, nunca desiste de nós, e mesmo assim nós temos o hábito de nos queixarmos por tudo e por nada, e pior ainda, temos a “mania “ de o culparmos por tudo o que nos acontece de mal.
Imaginei como Lhe devia custar, dar todo aquele Amor, dedicar-nos toda a Sua atenção, e em troca receber, lamúrias e queixumes. Mas Ele não é como eu, não se irrita, nem desiste, porque o Seu Amor por cada um de nós é maior do que tudo o resto, e mesmo que lhe púnhamos dificuldades, mesmo que lhe viremos a cara, Ele está sempre ao nosso lado, e espera pacientemente que O deixemos entrar.

Falei-Lhe, dei por mim a deixar toda aquela irritação que me envolvia ser “evaporada”, e no lugar desta apareceu o Seu Amor por mim.

Dei por mim a pensar nos Homens, se um fosse Deus como seria? Tenho a certeza que seria horrível, porque apesar de termos sido feitos à Sua imagem e Semelhança, nós Homens somos imperfeitos, somos pecadores, ao contrário de Nosso Pai. Nós Homens, apesar de todas as qualidades que Ele nos deu, temos imensos defeitos, como o egoísmo, a mentira, o constante “queixume “ etc Em vez de aceitarmos esses defeitos, e utilizarmos as qualidades muitas vezes, fazemos o inverso.
Se um de nós ocupasse o lugar do Altíssimo, seria um verdadeiro desastre porque em vez de ocorrerem as “injustiças “ do mundo, o caos estaria sempre presente, pois ao contrário de Deus, que sabe o que é o melhor para cada um de nós, o Homem só iria saber o que era melhor para si, não teria o Amor de Deus a guiá-lo e não saberia que fazer.
Sem Deus nada somos, e tantas vezes não nos apercebemos disso, só nos sabemos queixar, porque é mais fácil deitar a culpa nos outros em vez de encontrar soluções, ou caminhos a percorrer.

Monday, January 15, 2007


Entrei em casa, pousei as malas junto ao bengaleiro, e fui fazer uma torrada. Caminhei pela casa com pequenos passos , e apercebi-me das saudades que já tinha de percorrer cada uma daquelas divisões, de ver tudo o que tinha decorado, de sentir o cheiro da minha casa, estava com tantas saudades da minha querida cama.

Muitas amigas, achavam-na doida, por sentir saudades de casa, consideravam na uma sortuda por estar sempre a viajar, por ter a oportunidade de conhecer imensos sitios, de estar em todos os hotéis, e diziam que só se queixava.
Mas ela não se queixava, pelo contrário agradecia-Lhe sempre pela oportunidade que lhe tinha dado de conhecer novos costumes, novas pessoas, de contactar com outras culturas. Contudo haviam alturas em que sentia umas saudades inexplicáveis da sua casa. Saudades do cheiro, saudades de olhar para a janela repleta de humidade e ver os carros a passar, a D.Alice a estender a roupa, saudades de andar pela casa de pijama a transportar as coisas de um lado para o outro, saudades do seu cantinho.

Estava a pensar em tudo isto, quando entrou no seu quarto. Já não o via há tanto tempo, mas continuava igual. Ia começar a caminhar até à janela quando começou a espirrar desalmadamente. Parou e pensou:
-Meu Deus, ou estou a ficar doente ou isto está sujíssimo.
Olhou para a sua volta e reparou que realmente o quarto estava mesmo sujo, a camada de pó já era mais que visível. Mas da última vez que tinha vindo a casa tinha passado com o pano do pó, como poderia estar agora neste estado? Tentou-se lembrar da última vez que tinha aspirado, mas já tinha sido à tanto tempo…
Tinha mesmo que o fazer, a sujidade acumulara-se e não podia viver naquelas condições. Decidiu limpar tudo no próprio dia, e para isso precisava da ajuda do João, por isso ligou-lhe, porque arrastar móveis, levantar coisas, não era o seu forte e a dois fazia-se muito bem.
O João aceitou o desafio e foram limpar aquela casa que estava a precisar de quatro mãos.

Passaram algumas horas desde que chegara a casa, estava sentada na cama a ler, quando parou por momentos para admirar a limpeza que ela e o João tinham feito. Tinha ficado mesmo bem, tudo no lugar, mais arrumado e mais limpo.
Estava ainda a observar o seu humilde quarto, quando se lembrou da limpeza que devia fazer no seu interior.
Se muitos a ouvissem achariam que era maluquinha, limpeza no seu interior?

Tantas vezes estamos “sujos” por dentro, claro que não é com pó, nem com humidade, é uma “sujidade” diferente, mas que também se agarra, uma “sujidade” que não é limpa com vassouras nem com aspiradores.
A “sujidade “ propriamente dita, são os nossos pecados, que se vão agarrando e acumulando dentro do nosso ser, são as coisas que não fizemos, ou que fizemos menos bem, são tudo o que nos atormenta, são tudo aquilo a que voluntariamente, e conscientemente recusámos sabendo que era a vontade d ´Ele.
Podemos limpar o nosso interior de duas maneiras, a primeira é como se passássemos um simples pano do pó, que consegue tirar as impurezas mais visíveis e pode ser utilizado sempre, ou seja é na Missa quando no inicio pedimos Perdão pelo que temos feito, e assumimos a nossa condição de pecadores.
A segunda maneira é uma limpeza mais profunda, que envolve esfregar o que não saiu com a limpeza do pano do pó, que implica arrastar móveis, levantar secretárias, aspirar. E para fazermos tudo isto, precisamos de ajuda, porque levantar as coisas não se faz sozinho, envolve esforço e trabalho, e é mais fácil a dois. Por isso quando queremos aspirar a nossa casa precisamos de alguém que consiga ajudar a levantar tudo, que tenha a força que nos falta, também quando queremos “limpar” o nosso interior, precisamos de alguém que nos ajude a ver com os Olhos d´Ele, que nos auxilie a afastar os nossos “moveis “ interiores, a aspirar o que ficou por limpar, a procurar faltas, a rezar sobre acontecimentos, a pedir perdão.
Muitas vezes, me perguntam se me sinto à vontade a falar com uma pessoa que não me conhece sobre tudo o que tenho feito, até já me perguntaram se é igual ou semelhante a ir a um psicólogo, pessoalmente considero o acto da confissão como muito importante na minha vida espiritual, porque é nesse simples acto, que em conversa com o Padre, que é o representante de Deus e da Igreja, vejo a minha vida com os Olhos de Cristo e avalio o que tenho feito, confessar-me, é uma conversa sobre muitas coisas, é entrar dentro de mim, e vasculhar a minha casa interior, é limpar, é arrumar, é deixá-Lo entrar mesmo quando está tudo de pernas para o ar, porque Ele pode entrar sempre , e tantas vezes bate à porta e eu não lha abro por receio que olhe para a “sujidade” mas Ele não é como nós, Ele quer estar connosco mesmo no meio da confusão interior, Ele ama-nos, Ele perdoa-nos, e é através do Padre que recebemos o Seu Perdão.
Tantas vezes dei por mim a pensar no valor do sacramento da confissão, é limpar a nossa casa interior, é aceitar que somos pecadores, e reconhecer os nossos pecados, é pedir que Ele nos conceda o Seu perdão e nos ajude a fazermos a Sua vontade.

Tal como limpámos a nossa casa várias vezes, porque o pó surge e vai se acumulando, também a nossa casa interior tem que ser limpa de vez em quando, porque somos pecadores , contudo temos que nos aceitar como somos vivendo com o “pacote” que temos, de qualidades e defeitos e reconhecendo que erramos e que o fazemos muitas vezes. Com o passar do tempo até nos vamos apercebendo que erramos na maior parte das vezes nas mesmas coisas, porque somos humanos e como tal temos limitações, mas devemos procurar o Seu Perdão e devemos querer caminhar para a santidade com Ele ao nosso lado.

Foi assim que no meio de pensamentos e de uma longa conversa com Ele, cheguei à conclusão que precisava de me confessar, e após um exame de consciência sincero, lá fui com um sorriso nos lábios pedir-Lhe que me perdoasse.

Wednesday, January 10, 2007



Acordei no Hospital. A cabeça ardia-me, os olhos mal se abriam e não sentia metade do meu corpo. O cansaço que me invadia era algo inexplicável, nunca tinha sentido algo assim. Fiquei alguns minutos, parado a tentar acordar aos poucos e a perceber onde estava.
Ainda estava meio atordoado quando apareceu a enfermeira, perguntou-me como estava e se conseguia falar, depois de beber um copo de água perguntei-lhe:
- Onde estou? Não me lembro de nada. – e pousei o copo com a minha mão que estava meia ligada.
Ela respondeu:
- Está no Hospital de S.Maria, é normal que não se lembre foi internado recentemente, sofreu um grave acidente de viação- e ajudou-me a sentar me na cama.

Ao início estranhei a resposta, acidente de viação? Mas aonde e quando? Não me lembrava de nada, mas aos poucos a minha memória foi recuperando e o sofrimento invadiu-me, fui me lembrando de tudo.

Fui buscar a Maria à estação já passava das seis horas, íamos jantar fora. Namorávamos à mais de cinco anos, e estávamos a pensar em casar. Já tínhamos quase tudo planeado ao pormenor, a casa, o local de casamento, os convites, o nosso único problema, era o local de trabalho dela, que devido a uma reestruturação da empresa, tinha sido alterado e agora ela tinha que ir e vir todos os dias de Sintra até Lisboa.
Jantamos num restaurante perto de minha casa, tivemos uma conversa agradável, e decidimos ir para minha casa. Vimos um filme, convidamos uns amigos e passamos uma noite animada. No final da noite fui levá-la a casa, ainda não eram dois da manhã, estávamos parados num cruzamento perto do centro de Lisboa, e um carro ao fazer uma curva derrapou, o condutor perdeu o controlo da viatura e bateu-nos.

Após me ter lembrado do acidente, fiquei exaltado, o suor percorreu-me o corpo, e berrei, chamei o seu nome, queria saber onde estava. Os médicos apareceram na sala, preocupados e perguntaram-me que se passava, perguntei-lhes por ela. Pela troca de olhares percebi que não tinha sobrevivido. Comecei a gritar, as lágrimas inundaram-me a cara, o desespero tomou conta de mim, chorei toda a tarde, e toda a noite, deram-me sedativos para me acalmar, mas a dor que sentia, a qual é impossível de explicar, invadiu-me por dentro.

O meu processo de recuperação foi lento, parti a bacia, uma perna e tinha uma factura exposta do braço. Mas para mim nada disso interessava, estava deprimido, e revoltado com a vida, a tristeza invadiu-me e a depressão também.
Comecei a fazer as perguntas erradas “Que mal fiz eu a Deus para isto me acontecer ?”, “ Porquê a mim meu Deus?”, “ Porquê?”.
Afastei me de muitos amigos, fechei me em mim mesmo, precisava de pensar, precisava de estar só, queria chorar todos os dias da minha vida, não conseguia compreender o que me estava a acontecer.

Até que um dia, faltava pouco tempo para eu sair do hospital, recebi uma chamada, era do Júlio, um colega meu do liceu que nunca mais tinha visto. Fiquei surpreendido por me ter ligado visto que eu não sabia nada dele à mais de quinze anos. Tentei não atender a chamada, alegando dores, tentei não falar mesmo com ele, mas a pessoa que estava do outro lado da linha disse-me já irritada:
- Olhe já estou farta de lhe recusar as chamadas , e além disso este seu amigo está a ligar do Porto, portanto se não quer falar com ele diga-lhe o senhor. – e sem que eu pudesse dizer alguma coisa, passou a chamada ao Júlio.
Ouvi a sua voz rouca do outro lado do telefone, ainda sem saber muito bem o que dizer, fiquei calado por segundos, depois disse-lhe:
- Júlio, como estás? – e fiz a voz mais natural do mundo.
O Júlio, respondeu-me cordialmente e explicou-me que tinha tido conhecimento do meu acidente por amigos nossos, porque estas noticias se espalham depressa.
Falamos durante pouco mais de cinco minutos, eu não lhe disse muita coisa, visto que nem me apetecia falar, mas ele mesmo eu não tendo dito nada de especial, ficou muito satisfeito por puder falar comigo, prometeu, para meu grande desgosto na altura, que me tornaria a ligar. Desliguei o telefone e pensei que nunca mais iria saber dele, porque me haveria de ligar? Já não falávamos à mais de quinze anos, que teria para me dizer? O telefonema de hoje, é compreensível, ele ouviu que tive um acidente e quis saber se eu estava bem, quis me desejar as melhoras, mas daí a tornar-me a ligar era um grande “passo”- pensei.
Adormeci a pensar na alegria do Júlio ao falar comigo.
Acordei no dia seguinte indisposto, mais um dia no Hospital, mais um dia em que me recordava o que tinha acontecido, mais um dia de tristeza, e de repente o telefone tocou, era o Júlio de novo. Irritado disse à Senhora que estava do outro lado da linha que tinha acabado de acordar, mas ela mais uma vez não quis saber e passou-me ao Júlio. Desta vez, pedi-lhe que não falássemos porque nem tinha tomado o pequeno-almoço, e então ele desejo-me um bom dia e pediu-me se lhe podia ligar, eu fiquei meio parvo a olhar para o telefone que queria desta vez? Como só queria despachar aquela conversa disse-lhe que sim que lhe ligava.
Levantei-me com muita dificuldade e tomei o pequeno almoço, no fim, rasguei o número do Júlio e pensei que não lhe ia ligar, não queria falar com ninguém, pus os pedaços de papel no bolso e caminhei com passos tristes pelo hospital.
Estava já a chegar muito lentamente a um corredor, quando me deparei com uma capela, nunca pensei que o Hospital tivesse capela, e fiquei à porta, com receio que alguém me visse a entrar. Espreitei para ver se estava lá alguém e devagarinho entrei.
Naquele momento pensei na minha vida e chorei, chorei imenso, só Lhe perguntava porque me tinha abandonado, só queria que me devolvesse a minha vida, nem O deixei falar, levantei-me rapidamente e tentei desesperadamente sair da capela, mas quando estava a sair, o pé falhou-me e cai redondo no chão.
Não me conseguia levantar, as lágrimas encheram-me os olhos, por me sentir inútil, triste e dependente de outros.
Ainda estava no chão a ouvir os meus soluços, quando vi os pedaços de papel do meu bolso espalhados, era o número do Júlio, pensei em deixá-los ali, mas depois nem sei porquê peguei-lhes e pu-los de novo no bolso.
Não Lhe quis falar, sabia que tinha que o fazer, mas não o quis fazer.

Uma enfermeira levou-me até ao meu quarto, mudou-me o gesso e deu-me o telefone, disse-me que já tinham ligado várias vezes para mim a pedir que ligasse para o número que tinha guardado.
Estava meio abalado mas concordei em ligar, disquei o número lentamente, e ouvi a voz do Júlio, alegre e aberta do outro lado, desta vez falou comigo imenso tempo, ao inicio era uma conversa casual do momento, mas depois começou a fazer-me perguntas, que tentei resistir, no fim já tomado pelo cansaço e pela tristeza, deixei cair todas as minhas defesas e disse-lhe tudo o que sentia, a revolta, a incompreensão, a tristeza, chorei, não tive vergonha de lhe dizer o tão triste que estava, ele ouviu-me durante muito tempo e depois tomou a palavra e disse-me:
- Nuno, eu sei que estás a passar um mau bocado, mas também estas a fazer as perguntas erradas.
- Perguntas erradas disse-lhe? – perplexo.
-Sim, perante o sofrimento, o mal , a doença, a morte, que são inevitáveis e que não dependem de nós de que te serve recusar e revoltar-te? Não te resolve o problema, somente o agrava, mais deprimido ficas, mais angustiado, mais desesperado.
Esqueceste te de tudo o que Ele te ensinou? Esqueceste te d´Ele? – perguntou-me, e esperou que respondesse, mas apenas ouviu o silêncio, e continuou:
- Lembraste das discussões que tínhamos na cantina do liceu sobre Cristo? Lembraste de defenderes com unhas e dentes o Seu Nome, de dizeres que a sua paixão por Nós era algo que te fazia confusão, porque: " Ele se ofereceu ao Pai, por Nós, integrando o sofrimento e a morte. E depois ressuscitou, mostrando-nos a confirmação de Deus que O aceitou , e nos mostrou o caminho de Amor e de liberdade. "
Tantas vezes nos explicaste isso, e tantas vezes não te compreendi, mas a vida dá muitas voltas e eu segui o caminho que me deste a conhecer e descobri Cristo aos poucos na minha vida. Comecei a frequentar a igreja e a aperceber-me que fazia parte dela, comecei a ter uma vida activa como leigo, comecei a espalhar a palavra d´Ele aos outros. Aos poucos e poucos caminhei cada vez mais com Ele ao meu lado.
Mas não falemos de mim, pelo menos para já.
Relativamente ao que te estava a dizer, acho que há uma frase de S. Paulo que resume muito bem o sofrimento pelo qual passas neste momento “ Os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com o peso da glória que se há de revelar em Nós “,- calou-se por momentos e continuou:
- Mas se não gostares desta frase conheço outra de S.Agostinho que também acho que se aplica a esta situação “ Entre a morte de alguém e o juízo final, há ainda um oceano de misericórdia a atravessar” .
Agora sim, gostava de te contar uma coisa, quando saímos do liceu, aproximei-me de Deus, e passado alguns anos, comecei a fazer Exercícios Espirituais, que me fizeram crescer muito na minha Fé, e na minha relação com Deus, houve um dos exercícios que me marcou muito, porque mudou toda a minha forma de olhar para a minha vida.- Parou de novo e ouvi a sua respiração ténue.
Estava de tal maneira emaranhado na sua conversa que lhe pedi que continuasse, ele pediu-me só para beber um copo de água e continuou:
- Santo Inácio de Loyola, que sei que conheces, diz que “ O Homem se deve fazer indiferente” ou seja o Homem deve estar livre, disponível perante tudo o que o rodeia, de tal maneira que não queira mais saúde que doença, mais riqueza que pobreza, somente desejando o que mais nos conduz ao fim para o qual fomos criados. Ora bem, eu lembro-me de ter ficado pasmado com tudo isto, desde quando é que eu não desejo mais saúde que doença ? Mas depois de muita oração, e reflexão com Deus é que percebi, é que apesar da saúde ser um bem, que deve ser agradecido, é relativo, porque não é total, porque hoje posso estar bem e manhã já não.
Ou seja eu devo saber aceitar o que a vida me reserva, e aceitar é difícil Nuno, porque tantas vezes não percebemos o que Deus nos propõem, mas faz parte da vida, e foi nesse momento que percebi a minha limitação como ser humano, e vi tudo de outra forma, eu que valorizava a minha posição social, que olhava para o que era meu como um bem adquirido comecei a saber viver sem nada, isto é, comecei a não ter necessidade de ser mais rico que os outros, percebi que Ele nos aceita como somos, independentemente se nos sentimos frustrados, tristes ou desanimados com a vida. Ele só quer o nosso bem, mesmo que o que nos dá não nos pareça nada bom, tudo o que nos acontece tem sempre um lado positivo, e todas as experiências de vida tem um objectivo; que aprendámos algo.
Percebi, à luz do mistério Pascal de Cristo, que Ele, que sofreu, morreu e ressuscitou por nós para nos mostrar o verdadeiro amor, o verdadeiro caminho, Ele que ofereceu todo o seu sofrimento ao Pai, então eu devia fazer o mesmo, e cada vez que estou mal, entrego o meu sofrimento a Deus, e agradeço-Lhe por me conceder através da Fé a possibilidade de participar na entrega de Cristo.
Mas tudo isto custa Nuno, mas deves rezar sobre isto, Ele não te abandonou, jamais o faria, fala com Ele. Reza Nuno, Ele quer falar-Te, pára para O ouvires.

Ouvi a sua respiração do outro lado do telefone, arfava desalmadamente. Duas lágrimas corriam-me pela cara, e agradeci-lhe por tudo. Falámos mais vezes ao telefone, todos os dias, durante várias horas, e Ele falava-me através do Júlio, e fui ao seu encontro, com lágrimas nos olhos na minha oração diária. Ajoelhei-me diante d´Ele, e pedi-Lhe o seu perdão, e Ele abraçou-me como Pai.


Quando sai do Hospital, fui visitar o Júlio, queria revê-lo, queria abraçá-lo e agradecer-lhe por me ter levantado e dado a mão, a mão de Cristo, sem ele, eu não teria o sorriso nos lábios que tinha quando sai pelo meu próprio pé do hospital. Claro que ainda tinha um longo caminho a percorrer, a Maria tinha morrido e eu tinha muito que fazer, mas a maneira como aceitei a sua morte e tudo o que aconteceu, mudou, devido à minha Fé.
Sem o Júlio eu não teria redescoberto a minha Fé, não me teria reaproximado de Cristo, o Júlio deixou Cristo viver nele e através dele, Cristo falou-me, e abraçou-me, pegou-me ao colo no momento que mais precisei.
Soube a morada dele, e resolvi aparecer sem lhe dizer , queria lhe fazer uma surpresa. Chegado a casa dele, ninguém me abria a porta, e passado um bom bocado, julgando que me tinha enganado, abre-me uma enfermeira, fiquei preocupado, perguntei lhe se o Júlio estava doente, e ela riu-se e disse:
- O menino Júlio nunca está doente.
Visivelmente espantada pela minha pergunta indicou-me o quarto do Júlio, e percorri o corredor sozinho até a um quarto com uma janela enorme, e uma grande cama.
Na cama estava deitado o Júlio, esboçou um sorriso ao ver-me, e disse-me:
-Não esperava ver-te tão cedo Nuno. – e semi cerrou os olhos.
Eu olhei para ele espantado, seria este Júlio, que me tinha ligado tantas vezes quando tive no hospital, este Júlio, que está preso a uma cama? Não sabia que lhe dizer.
Ele apercebeu-se da minha situação e disse:
- Ainda não tinha tido oportunidade para te dizer, tinha que te preparar Nuno, desculpa me. Estou tetraplégico à mais de dez anos, tive um acidente de mota e parti a coluna vertebral. Não precisas de olhar para mim com pena, porque ofereço ao Senhor a minha doença, e estou preparado para quando Ele quiser eu partir na grande viagem.

Coloquei a minha mão em cima da sua, e pedi-lhe que me perdoasse por não me ter informado mais cedo sobre a sua situação, mas ele explicou-me que após ter tido o acidente precisou de se adaptar à nova vida que o Senhor lhe confiara, e que por essa razão andou desaparecido durante uns tempos, contudo de vez em quando vai aos hospitais dar o seu exemplo aos outros, umas vezes vai falar aos doentes terminais, para que tenham amor à vida, outras vezes vai falar a outras vitimas de acidentes, e também fala com os que mais precisam. Foi precisamente numa dessas suas visitas hospitalares, que na sua cadeira de rodas, deu de caras com a minha maca, num corredor, eu estava a dormir, mas as lágrimas corriam me pela cara mesmo a dormir, reconheceu me e prometeu-Lhe que me ia ajudar.

Já passaram mais de vinte cinco anos, desde o dia em que reencontrei o Júlio, casei-me, tive filhos e sou avô. O Júlio teve uma presença marcante na minha vida, foi meu padrinho de casamento e é padrinho de baptismo do meu filho. Continuámos a darmo-nos até ele morrer à dois anos, hoje olho para trás e nem sei como teria sido a minha vida sem ele ao meu lado, foi um companheiro de todas as horas, um amigo no Senhor, deu-me a conhecer Cristo, fez-me reencontrá-Lo. Com o Júlio cresci na Fé, cresci na minha relação com Deus, aceitei a morte, o sofrimento e a dor, mesmo não as compreendendo, aceitei as minhas limitações e passei a ver tudo com os olhos que ele via, os de Cristo.

E por isso agradeço-Te Senhor a vida do Júlio, de exemplo de Cristão, de amigo, e de irmão, que me acompanhou e me fez seguir-Te, mostrando-me como devia confiar em Ti.
Escrito inspirado no livro " A História de Deus comigo" do P.António Vaz Pinto, sj
Dedicado a todos os que sofrem, para que Cristo os acompanhe e abrace.

Thursday, January 04, 2007


Mudei de casa. Precisávamos de mudar, os miúdos estão a crescer, o Jorge precisa de um escritório maior, e eu queria renovar a disposição das coisas na cozinha.
Mas mudar de casa implica muita coisa, não se faz de um dia para o outro, temos que arrumar tudo, seleccionar o que levamos e o que deixamos para trás, empacotamos o que levamos, para depois voltarmos a desempacotar e a arrumar noutro local.
O que deixamos para trás, dependendo do que se trata, umas vezes vai para o lixo, outras vezes damos a quem quer ou precisa e outras ainda vamos buscar e empacotamos também porque pelo sim pelo não podemos voltar a usar.

Estávamos numa semana de “desempacotamentos e arrumações”, e enquanto as crianças brincavam no jardim, eu e ele desempacotávamos as coisas. O Jorge de vez em quando queixava-se de dores nas costas e eu queixava-me da “tralha “ que ainda tínhamos para arrumar.
- Já viste isto? Como é possível termos acumulado tanta coisa ao longo de quinze anos? - perguntei indignada ao olhar para os mais de dez caixotes que ainda nos faltavam só naquela sala.
- Vera, é normal, temos cinco filhos, e vamos comprando e recebendo coisas… que querias que fizéssemos? - disse-me abanando a cabeça e sorrindo.
- Gostava que pudéssemos ter esta casa toda arrumada num dia, gostava de não ter que passar aqui tardes inteiras a rever, a escolher, a abrir caixas, a empacotar e a desempacotar, porque nos dá tanto trabalho…- disse-lhe enquanto abria a vigésima caixa.

Ficou pensativo e depois disse-me:
- Sabes esta mudança de casa, faz-me pensar nas mudanças que ocorrem na nossa vida- e continuou enquanto limpava uma moldura – tantas vezes queremos mudar, sentimos necessidade para mudar, queremos ser diferentes, fazer outras coisas, experimentar algo novo, e dizemos “ Agora vou mudar isto e aquilo” e passado pouco tempo reparamos que não mudámos em nada.
- Sim, é verdade, tantas vezes temos uma ânsia enorme de mudar, de nos tornarmos melhores, de alterar as coisas e não o conseguimos fazer – respondi-lhe – mas qual é a relação entre a mudança pessoal e a nossa casa?- disse-lhe curiosa.
- A nossa mudança de casa, ao contrário do que tu desejas, não irá ser feita, num dia, nem numa semana, e talvez demore mais do que um ano. – disse-me e ia continuar quando eu interrompi estupefacta.
- Um ano?- perguntei
- Sim um ano, porque : agora estamos numa fase de desempacotar, vamos colocar nas novas divisões o que trouxemos da outra casa, vamos ver se encaixa tudo nesta casa, vamos levar algumas coisas para a arrecadação e outras vamos deitar fora porque afinal não servem, vamos comprar coisas diferentes, e vamos decorar divisões com coisas novas, vamos ter que escolher, vamos ter que pensar, vamos demorar imenso tempo, mas vai ser recompensador, porque quando a casa estiver pronta vai estar óptima, vai estar exactamente como nós queríamos, e o tempo “gasto” na sua preparação, na sua arrumação vai se revelar um tempo precioso e necessário, porque sem esse tempo, a casa estaria “desarrumada” teria coisas fora do sitio, iríamos estar sempre a queixarmos e a estranhar a “suposta” arrumação da casa.
A mesma coisa se passa nas mudanças que são necessárias na nossa vida, como queremos mudar tudo, acabamos por não mudar nada, porque a mudança interior exige tempo, paciência e persistência, não se muda de um dia para o outro. Precisamos de pensar no que queremos mudar, ver com os Olhos d´Ele se essa mudança é a Sua Vontade, se é o que é preciso, se é o melhor. Se for, temos que nos preparar para fazê-la. Muitas vezes mudar custa, dói, e sofre-se com isso. Por exemplo, e voltando á nossa mudança de casa, quando pensámos pela primeira vez que seria melhor para todos mudarmos, tu lançaste-me um olhar triste, porque querias ficar para sempre com a casa onde os miúdos nasceram, e deram os primeiros passos, e sofreste ao ver que isso não era possível, mas percebeste que ficar naquela casa não fazia sentido, não era o que estava certo.
Parou por momentos de falar, e eu sorri-lhe para que continuasse, ele percebeu e cedeu ao meu pedido:
- Também a mudança interior implica sofrimento, porque mudar é difícil, é alterar o “costume”, é dar um passo diferente, e exige tempo. O tempo na mudança é muito importante, porque o tempo vai nos fazer “encaixar” a mudança em nós, e quando demos por ela, já ocorreu. O tempo é preciso para seleccionarmos o que vamos deitar fora, e o que vamos manter dentro de nós, é preciso tempo para que o Espírito Santo nos faça Ver o melhor caminho a seguir, é preciso tempo para que toda a mudança ocorra de forma certa. Calmamente e sem pressas a mudança ocorre da melhor maneira, e vai sendo feita dia após dia, e as coisas vão encaixando e vamos alterando a pouco e pouco o que é preciso.
A mudança é uma constante da vida, temos que mudar muitas vezes, para nos adaptarmos ao que nos rodeia, para vivermos melhor mas principalmente para crescermos.
Lembraste quando há uns anos, te disse que sentia que precisava de mudar a minha relação com Deus?
Parei de cortar a abertura do caixote e disse-lhe:
- Jorge isso é diferente, tu sentias… - e antes que eu pudesse acabar a frase ele disse:
- Não, não, não é diferente. Eu queria mudar a minha relação com Ele, queria aproximar-me, sentia uma necessidade de intimidade, de abertura , de amizade. Sentia que só Lhe falava quando precisava, sentia que ainda tinha muito que apreender e que crescer na Fé, sentia ânsia pelo seu Amor. E que fiz? No inicio falei-Lhe, pedi-Lhe em oração, que me ajudasse a crescer de modo a aproximar-me d´Ele, pedi-Lhe que me desse força, persistência, e coragem para mudar, porque para me aproximar d´Ele tinha que mudar muita coisa! Os hábitos, a minha forma de olhar para Ele, a minha maneira de rezar, eu tinha que crescer mesmo. Houve uma altura em que tive medo, medo de não conseguir mudar, medo de não ser capaz, medo de sair de mim e de ir ao Seu encontro, mas confiei, e esta confiança foi crescendo com o Seu Amor. Depois comecei aos poucos a ir mais à missa, comecei a ir a conferencias sobre Cristo que me interessavam, comecei a ler mais sobre Ele, e no fim dei por mim num Movimento Católico contigo, a dá-Lo a conhecer a outros e a partilhar a minha experiência de vida com Ele ao meu lado.
- Sim realmente , tens razão, a tua relação com Deus mudou mesmo, olho para trás e vejo o caminho que percorreste e que ainda percorres, foi longo mas o tempo que demoraste a “organizar “ as ideias, a perceber o que Ele queria de ti, esse tempo foi essencial, e sem esse tempo, não haveria mudança, e tua abertura à Fé não teria sido possível. Se não o tivesses feito aos poucos e com Ele ao teu lado, nada teria mudado.
- E sabes qual é o mais engraçado?- perguntou-me enquanto se levantava, e tirava as luvas, aproximando-se de mim através de pequenos passos – é que nós só queremos mudar se for para melhor, e muitas vezes achamos que sabemos o que é o melhor, mas digo-te, toda a mudança só é bem feita se Ele estiver ao nosso lado, se partilharmos com Ele as nossas decisões, se O pusermos a par das nossas dúvidas, se Ele participar na nossa vida activamente, porque Ele sabe mesmo o que é o melhor para nós, e só Ele sabe quando devemos mudar.

Sorrimos os dois, e olhámos para as paredes brancas daquela casa, e estas fizeram me lembrar as paredes brancas da minha vida, que foram sendo preenchidas por factos, por historias por pedacinhos de Deus na minha vida, e tudo o que as foi preenchendo, foi feito com muita mudança, mas também com muita confiança n´Ele, porque sem Ele a mudança não era possível.

Saturday, December 30, 2006


Olhei para a folha branca que tinha diante de mim. Estava pálida e limpa tal como quando eu a tinha pousado. Virgem e intacta olhava para mim à espera que eu escrevesse algo nela.
Todos os anos, quando a altura era propícia, eu reflectia no ano que tinha passado. Pensava e rezava sobre todos os acontecimentos, bons ou maus, grandes ou pequenos. Relembrava me de momentos, de pessoas, de livros de ocasiões etc E de tudo o que tinha acontecido guardava o seu melhor, porque do pior só se tiram lições e não lembranças.

Todos os anos escrevinhava promessas e desejos para o ano seguinte. A esperança de mudar, era algo que me invadia desde o primeiro dia do novo ano, o desejo de fazer tudo ao mesmo tempo, de dar uma grande volta, de tornar tudo melhor. O novo ano, era uma lufada de ar fresco na minha vida, mas este ar, ao contrário do que eu pensava durava sempre pouco tempo. Eu nunca me tinha apercebido da ilusão em que vivia nesta quadra, até ao dia em que falei com o Francisco.

Encontramo-nos num café perto de casa dele. Já não nos víamos à mais de um mês, eu tinha ido à neve, e para meu grande desgosto, tinha a marca dos óculos estampada no rosto. Ele vinha de Timor, tinha estado dois meses como Missionário, e trazia um enorme sorriso contagiante.
A conversa fluiu normalmente, falamos de sonhos, de projectos, de vidas.
No meio da conversa surgiu o tema da passagem do ano, ele disse-me que era dos acontecimentos que menos festejava, porque para ele a festividade que se vivia à volta deste acontecimento era exagerada e além disso preferia o Natal. Perguntei-lhe com curiosidade o que queria dizer com isso de preferir o Natal, e ele explicou-me:
- O Nascimento de Cristo, que todos preparamos ao longo do Advento é para mim dos acontecimentos mais importantes do Ano. Eu quero recebê-Lo sempre no meu coração, acolhê-Lo e crescer com Ele junto a mim. Mas este acontecimento que é festejado num dia simbólico, e que é de tal modo importante que marcou a história de toda a Humanidade, é “esquecido” dias depois, e quase abafado por outras festividades que se impõem. – olhou para mim, que o fixava com interesse e prosseguiu:
- Não estou a dizer que não se deve festejar a passagem do Ano, mas penso que tudo deve ser feito com peso e medida, nada de exageros nem de ilusões. Por exemplo, hás-de reparar que a maioria das pessoas quando lhes perguntas o que esperam do novo ano, as respostas mais comuns, serão os desejos, as ambições, os projectos. Tudo coisas grandes e ambiciosas, muitas vezes ilusórias e pouco credíveis. E depois quando lhes voltares a questionar a meio do ano, irás reparar que tudo aquilo em que se iriam aplicar no início do ano, tudo aquilo a que se propuseram, já muitas nem se recordam, e outras tristemente não conseguiram realizar.
Olhou para mim à espera que eu comentasse, e eu respondi-lhe com vergonha:
- Pois isso já me aconteceu muitas vezes, olhar para o novo ano com esperança, e traçar projectos, ter imensos desejos e ambições que na maior parte das vezes nem realizo e que muitas vezes nem consigo perceber porquê.
Ele sorriu-me. Percebia-me perfeitamente e disse-me:
- Há uns anos isso também me acontecia, até ao dia em que um Padre me disse para fazer tudo com calma e seguir a regra dos três Pês. Esta regra consiste basicamente em três palavras: Poucos, Pequenos e Possíveis. E eu aplico-a por exemplo aos projectos que faço para o Novo Ano, faço Poucos projectos, para não me dispersar, Pequenos , que ao contrário do que muitas pensam não é o oposto de serem ambiciosos, e Possíveis de se realizar.
Mas os projectos que faço para o Novo Ano, só são escritos e ponderados após uma reflexão pessoal e muita oração sobre o Ano que passou.
Nessa Oração, faço sempre uma coisa que a minha Mãe me ensinou, e que me têm ajudado muito a crescer especialmente na minha Fé. Em vez de pedir os doze desejos, ao som das doze badaladas, escrevo as Doze Graças que dou ao Senhor pelo Ano que passou. Escrevo-as por Ele, porque ainda agora Nasceu em mim, e já tanto me deu.
Se soubesses o tão bem que me sabe, Entregar-Lhe a minha oração de Graças. É olhar para o ano que passou e Ver a mãozinha d´Ele presente na minha vida, é Ver com os Olhos d´Ele os acontecimentos do Ano, bons e menos bons, é um ponderar e crescer na Fé.

Espantada e pensativa fiquei o resto da tarde a falar com o Francisco. No final do dia, levou-me a casa, e lançou-me um desafio:
- Oh Teresa, e se este ano mudasses a tua passagem de ano por Ele?
Respondi-lhe perplexa:
- Que queres dizer com isso?
- E se fizesses uma oração de Graças ?- disse-me a sorrir.
Olhei para ele, e vi o Olhar de Cristo, a lançar-me um desafio, como que a perguntar-me se queria crescer com Ele na Fé.

Chegada a casa, tirei uma folha de papel branca do meu caderno. Lembrei-me do Francisco, das suas palavras, do seu sorriso, e sorri também.
Permaneci algum tempo parada a pensar. Ao contrário dos outros anos, não me apetecia escrever promessas e falsos propósitos.
Rezei, pedi-Lhe que me ajudasse a Olhar para o ano que tinha passado com os Seus Olhos.

Peguei na caneta e escrevi:

Oração de Graças pelo Ano que passou:

1- Obrigado Pai pela família que me deste, que me tem apoiado muito durante toda a minha vida, mas que me apoiou especialmente este ano, sem se queixar, mesmo quando eu passei momentos menos bons, em que só me apetecia desistir de tudo.

2- Obrigado Pai, pelos amigos que tenho, e pelos que ainda vou conhecer, que me tem feito crescer como Pessoa, como Mulher e como Cristã, pois na amizade que mantenho com cada um deles, é um elo que mantenho contigo, e uma maneira de Te revelares.

3- Obrigado Pai, pela oportunidade que me deste de iniciar o Mestrado, pela oportunidade de continuar a estudar, e de adquirir novos conhecimentos que é das coisas que mais gosto e das que menos valor dou.

4- Obrigado Pai, pela casa, pela comida, pela roupa, por tudo o que me rodeia, desde das pequenas coisas do dia a dia, como ter água quente ou roupa lavada, até às grandes coisas como ao carro que conduzo e ao sitio onde estudo, e que muitas vezes não dou valor, mas que me servem de muito e que já fazem parte da minha rotina, e sem estas, nada seria igual.

5- Obrigado Pai, pela oportunidade que me tens dado de Servir os meus irmãos no Hospital, e de conhecer outras vidas tão diferentes da minha, de lhes oferecer o Teu Amor, e de lhes dar um pouco de mim, que é para isso que eu estou aqui, para Te dar a conhecer, servindo os Outros e entregando cada momento a Ti, confiando e acreditando.

6- Obrigado Pai, pelas viagens que este ano fiz, que me abriram os horizontes e me fizeram crescer tanto e amadurecer em termos pessoais e profissionais.

7- Obrigado Pai, pelo António, que me ajudou muito nos momentos menos bons que passei ao longo deste ano, como quando chumbei aquele exame, pois sem ele, a minha motivação para estudar seria menor, e não teria corrido como sabes que correu.

8- Obrigado Pai, pelas ocasiões que me aconteceram, como o acidente de carro que sofri, a perna que parti, porque mesmo não sendo ocasiões das quais me goste de relembrar, sei que estiveste sempre presente e consigo ver as Tuas mãos a pegar-me ao colo quando me sentei no chão com vontade de chorar. Deste me o apoio e a força que precisei para dar a volta às situações menos boas, e mesmo não as compreendendo deste me a Fé para perceber que sem estas eu não saberia apreciar os momentos bons da vida, ou seja os momentos opostos aos que passei.

9- Obrigado Pai, por todos os momentos que passei ao longo do ano, e dos quais me relembro com um sorriso nos lábios, como a passagem do ano lectivo, a festa de anos do João, o jantar da Sofia, tudo momentos em que estiveste presente e me deste um grande abraço, obrigado por partilhares comigo estes momentos bons da vida, em que a Felicidade nos invade e envolve como o Teu Amor por cada um de nós.

10- Obrigado Pai, por todas as “coincidências “ da vida que este ano senti acontecerem, e pelas “voltas que a vida dá”, porque tantas vezes te peço uma coisa, e sei que o que me dás é sempre o melhor para mim. Tantas vezes olho para o que me deste e me queixo, sem ver que o que recebi era tão melhor, e mais adequado à minha pessoa do que o que eu pedi.

11- Obrigado Pai, pelo Francisco, porque sem Ele eu não estaria aqui a escrever-Te, e a agradecer por cada coisa que aconteceu ao longo deste ano, sem ele eu não teria a noção da sortuda que sou, e do quanto me tens dado, sem o Miguel, eu estaria agora a escrever mil pedidos, em vez de estar a agradecer o que me tens dado, porque é tão fácil pedir, e tão difícil agradecer. Obrigado por Te dares a conhecer através dele, e por o guiares com o Espírito Santo, dando a conhecer a Tua palavra e a Tua vontade.

12- Obrigado Pai, por estares sempre presente na minha vida, Obrigado pelo apoio que me tens dado, mas principalmente Obrigado pelo Teu Amor, que não compreendo, porque é algo que me envolve e me absorve de uma maneira única. Obrigado por me aceitares como eu sou, e me fazeres crescer na Fé. Obrigado


Dobrei a folha e rezei. Sentia-me tão profundamente agradecida, como é Bom dar Graças pelo que temos, porque tantas vezes não temos noção, não damos valor ao que Ele nos dá, não temos noção do que é ser sermos Filhos muito Amados.
Nesse momento pedi-Lhe que me desse força, para com o Espírito Santo, iniciar o Novo Ano com um grande balanço, um grande impulso para fazer tudo por Ele, envolvida no Seu Amor que esse é sempre Novo.

Sunday, December 24, 2006


Num dia tão especial como o de hoje, em que vai Nascer o Nosso Salvador, decidi ceder o meu lugar, a uma pessoa que gostava muito de ter conhecido pessoalmente. Deixo-vos aqui um texto, que gosto muito, da tão querida Madre Teresa de Calcutá:

Ele vem aí e quer amar-te

“Quero que saibas que cada vez que me convidas, eu venho sempre, sem falta. Venho em silêncio e de forma invisível, mas com um poder e um amor que não acabam.
Não há nada na tua vida que não tenha importância para mim. Sei o que existe no teu coração, conheço a tua solidão e todas as tuas feridas, as tuas rejeições e humilhações. Eu suportei tudo isto por causa de ti, para que pudesses partilhar a minha força e a minha vitória. Conheço, sobretudo, a tua necessidade de amor.
Nunca duvides da minha misericórdia, do meu desejo de te perdoar, do meu desejo de te bendizer e viver a minha vida em ti, e que te aceito sem me importar com o que tenhas feito. Se te sentes com pouco valor aos olhos do mundo, não importa. Não há ninguém que me interesse mais no mundo do que tu.
Confia em mim. Pede-me todos os dias que entre e que me encarregue da tua vida e eu o farei. A única coisa que te peço é que confies plenamente em mim. Eu farei o resto.
Tudo o que procuraste fora de mim só te deixou ainda mais vazio. Portanto, não te prendas às coisas passageiras. Mas, sobretudo, não te afastes de mim quando caíres. Vem a mim sem demora, porque quando me dás os teus pecados, dás-me a alegria de ser o teu Salvador. Não há nada que eu não possa perdoar.
Não importa o quanto tenhas andado sem rumo, não importa quantas vezes te esqueceste de mim, não importa quantas cruzes levas na tua vida.
Tu já experimentaste muitas coisas, no teu desejo de seres feliz. Porque é que não experimentas abrir-me o teu coração, agora mesmo, mais do que antes?”
Aproveito para vos deixar como presente de Natal, alguns blogs que recomendo que leiam, ou que dêem uma espreitadela, porque vale muito a pena:
www.portinhodeabrigo.blogspot.com é o blog da Xana, que nos serve de "abrigo" e onde encontramos uma boa amiga.
http://toquesdedeus.blogspot.com é o blog do Nuno Branco sj, que é Jesuita, e é sem dúvida dos Melhores blogs que existem, se não acreditarem dêem uma espreitadela, vale mesmo a pena,é tão bem escrito! E tem Deus presente em cada palavra.
www.jardimdeluz.blogspot.com é o blog da MC, que muitas vezes nos mostra a luz do caminho que nos leva ao Senhor.
www.esperaacreditaconfia.blogspot.com é um que considero fantástico, não por ser da minha querida amiga Inês, mas porque se derem uma espreitadela vão ver que tenho mesmo razão! Os pensamentos, textos, frases etc, que o enchem, envolvem-nos completamente como o Amor de Cristo!
www.sodeusbasta.blogspot.com é o blog de Dois Discípulos do Senhor que nos ajudam a compreender a Sua palavra.
www.fiat--lux.blogspot.com este é sem dúvida um blog muito bom, que vos aconselho a ir dar uma espreitadela. É da Nônô e da Sofia, e tem de tudo um pouco, dependendo dos dias, há dias em que nos faz pensar, dias em que nos faz rir, e dias em que nos faz Rezar.
www.espiritodivino.blogspot.com é um blog que vou muitas vezes para pensar, porque tem textos da "longe de ti" que apesar de muitas vezes serem partilhas pessoais, muitas vezes as dúvidas, os pensamentos etc de uns são também os meus.
www.queeaverdade.blogspot.com na minha mais sincera opinião é dos melhores blogs da blogosfera. O seu autor é o Joaquim, que através das suas Palavras nos transmite a Mensagem de Cristo.
www.almasemaspas.blogspot.com um blog que para minha grande pena só é escrito aos domingos, mas que vale mesmo a pena ir, porque os textos da MMaria, são verdadeiras obras-primas do Espirito Santo.
www.amar-tesomente.blogspot.com é o Blog do António Valerio sj, que é Jesuita, e partilha com todos os seus pensamentos. É um local óptimo para pensar e Crescer na Fé com a ajuda de Um Amigo do Senhor.
www.caminhandoaoencontro.blogspot.com é o blog de uma Catequista que partilha as experiências e vivências próprias de uma pessoa que ajuda e introduz muitas vezes outros na Fé Cristã.
www.deusemtudoesempre.blogspot.com é o blog da Maria João, que escreve muito bem e que nos transmite o Amor de Cristo de uma maneira especial através das suas palavras.
www.raparigadaaldeia.blogspot.com é o blog da Querida Gota de Chuva, que nos "molha " com a sua sabedoria, e nos faz pensar com a Graça do Espirito Santo no Amor de Cristo por cada um de nós.
www.parecianborrachos.blogspot.com , este é dos blogs que mais aconselho, por ser escrito por Jesuitas de vários países, que partilham experiências, orações, pensamentos e frases.
www.acreditarconfiarentregar.blogspot.com é o blog da Maria, que tantas vezes me põem a pensar, através dos seus textos que adoro.
www.euquecaminho.blogspot.com é o blog do Mike, que caminha como todos nós na Fé, e que nos vai fazendo rezar através dos seus textos e "obececações " . É um caminho que digo-vos vale muito a pena percorrer.
www.fidesintrepida.blogspot.com é o blog do Diogo, que escreve iluminado pelo Espirito Santo, e que nos põem a todos de boca aberta.
www.hajaoqhouver.blogspot.com é o blog do Zé Maria sj, que é Jesuita e escreve muito bem, faz parte do blog já referido anteriormente "parecian borrachos" e é das pessoas que mais me faz pensar em Cristo na nossa vida quotidiana.
www.pensarcristo.blogspot.com, é o blog do António e do Pedro, que eu considero meus amigos do Senhor, e que todos os dias nos dão a conhecer um bocadinho do caminho que percorremos juntos com Cristo, por Cristo e em Cristo.
www.entodoamaryservir.blogspot.com é o blog do Javier sj, que é um Jesuita espanhol, e que também faz parte do blog referido anteriormente "parecian borrachos". Leiam um bocadinho dos textos do Javier, porque depois já não vão conseguir parar de ler.
www.sonmishuellaselcamino.blogspot.com é o blog de outro caminhante, que nos ajuda a percorrer o Nosso Caminho com Cristo de uma maneira mais Cristã, fazendo nos Ver cada momentoda nossa vida com os Olhos de Cristo.
www.amorprimaveril.blogspot.com é o blog de dois amigos meus a Joana e o Pyny,que nos fazem rir e pensar no Amor que nos rodeia. Se estiverem num dia "não" dêem lá um saltinho para se rirem e verem o lado positivo das coisas, porque muitas vezes precisamos de uma gargalhada.
www.ilustrana.blogspot.com é o blog da Ana e que desenha maravilhosamente bem! Eu adoro cada um daqueles desenhos.

Saturday, December 23, 2006


Acabamos de Jantar, tal como nos anos anteriores, às dez e meia. A Inês foi para o quarto arranjar-se e eu fui arrumar a cozinha. Como sabia que ela ainda ia demorar, fui procurar os meus sapatos e engraxá-los.
Enquanto o fazia, pensava com o meu Espírito contente que daí a umas horas iria recebê-Lo, iria ao Seu encontro, iria estar com Ele. O meu coração encheu-se de felicidade e um sorriso esboçou-se na minha cara.

De seguida e como se fosse de propósito, Ela ligou-me, já não nos falávamos, à mais de três anos, muitos acharão isso impossível sendo ela minha irmã, mas na minha família sempre existiram discussões com demasiada frequência.
Olho para o telefone em silêncio, reconheço o número e penso:
- Porquê? Porquê hoje? - Deixo-o tocar, a Inês grita que o atenda, levanto-me e suavemente coloco o no meu ouvido. Já não ouvia a sua voz há tanto tempo, fala desalmadamente, quer que me encontre com ela rapidamente, pergunta-me onde vou, a que Missa, quer me abraçar, sente-se mal, precisa de mim.
Na minha cabeça mesquinha muitas perguntas se formulam, e a nossa discussão? E tudo o que te disse? E todas as palavras que me magoaram e que te magoaram? Tudo parecia ter inexistido, somente o Amor Por Ele nos uniu.
Ouvi-a durante mais de meia hora, e senti que não queria estar comigo para se sentir bem consigo mesma, nem queria estar comigo para O agradar, queria estar comigo, porque achava que como irmãos que somos, devíamos aproveitar o Nascimento de Deus para irmos ao Seu encontro juntos e ajoelharmo-nos perante Ele, sem ressentimentos, sem dores, sem tristezas.
Combinamos encontramo-nos depois da Missa, visto que a nossa conversa já se tinha prolongado bastante.

Desliguei o telefone meio alunado, teria sido um sonho? Duas lágrimas surgiram nos meus olhos, não sabia que Lhe Agradecer, se pelo o facto de Ele me ter perdoado, ou se pelo facto de me ter feito perdoar, porque ambas eram coisas tão difíceis.

-Quem era Luís? – Perguntou-me a Inês, espantada com a minha cara.
-Era a Ana, vamos ter com ela depois da Missa, pode ser? Precisamos de lhe falar - disse-lhe.

Lá fomos nós para a Missa, uma das Missas mais bonitas do Ano, receber o Menino que tinha nascido, e no final da noite, estivemos com a minha irmã que nos recebeu como Ele de braços abertos.

Chegamos a casa cansados, a Inês foi se deitar , e eu fui rezar, precisava de Lhe falar e de perceber o que tinha sido “aquilo” e o porquê deste acontecimento. Eu sei que não há coincidências, tudo acontece por uma razão de ser, porque Ele quer, porque é a Sua Vontade.
Rezei sobre o assunto com Ele ao meu lado. E já estava tão cansado que quase adormeci, nem sei se cheguei a fazê-lo mas Vi algo, imaginei que me contavam uma história , o que quer que seja que aconteceu foi especial, e sei que teve a Sua Mão.

Todo aquele sonho, começava na noite em que me encontrava, recuava apenas algumas horas, eu e a Inês iríamos a casa dos meus Tios dar e receber presentes. A Inês iria querer levar o Vinho, e alguns doces típicos, assim que saiu mais cedo para ir a casa do António, seu irmão, buscar o que tinha preparado. Fiquei sozinho a embrulhar os últimos presentes, a riscar nomes da lista, a fazer o que menos gostava mas que era necessário. Ouvi bater à porta, pensei ser a Inês, porque distraída como era esquecia-se sempre da chave em cima da cómoda, irritado levantei-me e abri a porta, e dei com uma Senhora Grávida à minha frente. Suada e cansada, com a roupa gasta a pobre senhora apareceu à minha frente. Nada me disse, e eu olhava-A desconfiado, porque me bateu à porta esta Mulher ?, Perguntei-Lhe se queria alguma coisa, se precisava de ajudava, e apeteceu-me fechar-Lhe a porta na cara ao ver que nada me dizia. Eu tinha tanto que fazer, tantos presentes para embrulhar, tantas pessoas a quem ligar, e ainda “perdia” tempo com uma Mulher grávida a esta hora?
Foi então que ela falou. Docemente me disse:
-Ele vai nascer, preciso que me deixes entrar.

Fiquei em pânico, pensei em ligar a algum hospital, ou falar com a Inês, que poderia eu fazer?

Calmamente entrou, e sentou-se numa cadeira a meu lado, fui Lhe buscar água e comida, perguntei-Lhe se queria ligar a alguém, mas Ela continuava calma e calada. Após algum tempo a minha exaltação parou, e reconheci-Lhe o Olhar. Ela sorriu e disse:
- Obrigado Luís, por nos receberes, agora Ele já pode nascer no Teu coração porque me acolheste, Confia N´Ele porque mesmo sendo tão pequenino e frágil vai encher o Teu coração de ternura.

Acordei, ou melhor voltei onde estava e sorri-Lhe, e percebi, parecia tudo tão claro.
Ele veio ao meu encontro, eu acolhi-O, e a minha irmã, oh a minha querida irmã, quis que eu fosse com Ela recebê-Lo, porque juntos iríamos receber o Seu Amor como Ele queria que fossemos, de mãos dadas, abrindo a porta a Maria para que O tivesse ao nosso lado, para que ambos o Abraçássemos e abraçássemos também o Seu Amor.

Fui me deitar, beijei a Inês na testa e agradeci-Lhe pelo Dia, estava desejoso de falar com a minha irmã, precisava tanto de lhe falar e de lhe agradecer por se ter deixado guiar pelo Espírito Santo.

Nesse dia percebi que o que aos nossos olhos muitas vezes parece impossível, não o é aos Olhos de Deus, como era a minha zanga com a minha irmã, que eu achava irreconciliável. Lembrei-me de Madre Teresa de Calcutá: “ É fácil amar os que estão longe, mas nem sempre é fácil amar os que estão a nosso lado “.
Também percebi que não vivemos de Pão e água, de poder e de consumismo, mas vivemos apenas do Amor de Deus, porque este nos enche por dentro, nos envolve, e só este nos torna capazes de sermos quem somos. Porque sem Ele, nada sou, pois Ele é o centro da minha vida

Wednesday, December 20, 2006


Desta vez resolvi ceder o meu lugar a uma pessoa que escreve muito bem e por quem tenho uma grande admiração. Deixo-vos aqui o Conto de Natal, escrito no dia 18 de Dezembro de 2006 no DN pelo Prof. João César das Neves:

"Zacarias quase deslocou o ombro, empurrado pelas escadas do Templo no meio do tumulto. Além de arruinado, quando todas as suas pombas voaram para longe, fora espezinhado. Tudo isto por causa da fúria daquele estranho Nazareno, que espantara animais, derrubara mesas e espalhara o dinheiro. O vendedor de pombas até simpatizava com Ele, mas agora ficou furioso.Estava mesmo farto desta mania dos Messias! Costumava dizer que essas conversas eram boas para o negócio, mas com a destruição dessa tarde mudara de ideias. À medida que os anos avançavam, até as profecias iam ficando mais violentas... Que tempos estes!Ele conhecia como ninguém a influência dessa tradição. Lembrava-se bem de a presenciar logo nos primeiros dias do seu negócio no Templo, quando ainda era um rapazola inexperiente. Dessa vez fora por causa de um bebé apresentado aos sacerdotes. O velho Simeão, que todos por ali conheciam bem, fizera um enorme barulho, dizendo que o Messias tinha chegado. Na altura Zacarias, na sua juventude ingénua, ainda acreditara que alguma coisa iria suceder. Mas claro que nada aconteceu.Depois durante uns anos as profecias acerca do Messias estiveram calmas. Ouvia-se falar de revoltas, mas longe do Templo. Ele só se lembrava da comoção à volta de um estranho rapazinho e das suas perguntas aos doutores da Lei. Nunca ninguém soube quem era, mas falou-se disso durante anos. Agora, quando já toda a gente quase se esquecera das profecias, vinha este nortenho criar problemas.Será que Zacarias acreditava realmente que o Messias um dia viria? Muitas vezes fizera a si mesmo esta pergunta. Estava convencido que sim, que acreditava. O seu melhor amigo, o cambista José, costumava dizer que havia mais incrédulos entre os sacerdotes que entre os mercadores. Mas a questão decisiva, a que não conseguia dar resposta, era se teria coragem, quando Ele chegasse, para deixar tudo e segui-Lo. Para um rico era muito difícil fazer essas coisas.Ao menos, pensou meditativo, esse obstáculo fora eliminado: ele agora era pobre. Zacarias, esfregando o ombro, ia coxeando por ali, avaliando os estragos e ouvindo as conversas indignadas. Então viu João. Apesar de ser também nazareno e discípulo do profeta, pertencia a famílias influentes em Jerusalém e até era conhecido do Sumo Sacerdote. Zacarias, que nada tinha a perder, decidiu pedir-lhe explicações. João respondeu citando um salmo: "O zelo da Tua casa devora-me" (Sl 69,10).Então Zacarias repetiu a justificação que tantas vezes ensaiara para si mesmo. Os mercadores exerciam uma tarefa necessária e útil. Sem eles como haveria culto e sacrifícios no Templo? Estes visionários arruaceiros, com os seus sonhos e irritações, não percebiam nada da verdadeira religião! João limitou-se a murmurar o que todos tinham ouvido durante o tumulto: "Está escrito: a minha casa há-de chamar-se casa de oração (Is 56, 7), mas vós fazeis dela um covil de ladrões."Ficaram ambos em silêncio alguns segundos. Então João disse: "Sabias que hoje é o dia do Seu aniversário? Não é curioso que tenha feito uma coisa destas na sua celebração natalícia?" Zacarias não respondeu. João continuou: "Provavelmente antevê o que os mercadores farão, um dia, da festa do seu nascimento, como hoje fazem de todas as festas. Vocês transformam em negócio as coisas mais sagradas!" Depois acrescentou: "Que mais saberá Ele acerca da celebração futura do seu aniversário?"Nesse momento passou por ali um grupinho de crianças, que se divertiam a correr atrás dos animais fugidos. Eles gritavam: "Hossana ao Filho de David." Então os Sumo Sacerdotes e os doutores da Lei ficaram indignados e disseram: "Ouves o que eles dizem?" Respondeu-lhes Jesus: "Sim. Nunca lestes: 'Da boca dos pequeninos e das crianças de peito fizeste sair o louvor perfeito?' (Sl 8, 3)."Ao ouvir estas palavras, Zacarias teve um um sobressalto. Lembrou-se da frase que sempre mais o perturbara, o último versículo do livro do profeta Zacarias: "Naquele dia, já não haverá mais comerciantes no templo do Senhor do universo" (Zc 14, 21). Há muito que esta antevisão do seu homónimo o tinha incomodado na sua profissão. José, sabendo desta perturbação, costumava assegurar-lhe a rir que tirar os mercadores do Templo era impossível. Mas agora a profecia do dia do Senhor estava bem à vista. O Messias chegara!"Então aproximaram-se d'Ele, no Templo, cegos e coxos, e Ele curou-os." (Mt 21, 14). Era Natal. "

Tuesday, December 19, 2006

Uma coisa diferente:
-A Malu começou e pediu que a Xana, continuasse e depois passasse:

-Há uma estrela no Céu
A brilhar o meu caminho:
Jesus Cristo que nasceu
Num lugar tão pobrezinho.

-Esta pequena bola azul
Vai tomar o seu lugar
Levar-nos a Norte ou a Sul
Onde O formos encontrar!

-De Blog em Blog vai passar
Levando consigo esta canção
Para cada um lhe juntar
Um pedaço do seu coração.

-Xana, agora é contigo
Que Jesus quer brincar,
Apanha a bola, vou-ta chutar

A Xana continuou e passou para o Joaquim:
-Que bom é dizer:”Jesus,
Contigo eu quero brincar!
”Dás-me tanto Dessa Luz,
estendo as mãos pr’á agarrar!”

Que bom é depois passar
Essa Luz a um amigo
e dizer-lhe, a cantar,
“Toma, Jesus tá contigo!”

Vejo amigos em redor
tão importantes pr’a mim
"Vou passar-Te, meu Senhor
para o Bom Joaquim.

-Que bom é passar-Te assim
E Tu sorris, adoras isto!
"Abre os braços, Joaquim,
sente Aquele abraço em Cristo!

-O Joaquim continuou e passou para quem está escrito no fim:

Recebo-Te assim, Jesus,
Bem dentro do coração
O Teu amor me conduz
Vem dá-me a Tua mão.

-Quero brincar e saltar
Com a bolinha, Senhor,
Amar, amar, só amar
Viver sempre do Teu amor.

-Ser Santo como Tu,
Como o Espírito quiser,
Com a Xana e a Malu,
E quem connosco vier.

-Tenho que Te dar, Senhor,
É para isso que eu existo,
Passar-Te ao Pedro, ao António,
Pra que brilhes no Pensar Cristo.
-Refrão:Este blog tem uma bolinha azul,ó tem, tem, tem......
António, Pedro, agora recebei-O e enchei o Pensar Cristo da Sua presença, como sempre fazeis.

-Felizes por ter brinquedo,
Com esta bolinha brincarás!
Obrigado meu bom Jesus
Pelos amigos que nos dás!

-Da Malu que inventou o jogo
À Xana que o jogou,
Logo vem o Joaquim
Que a bola nos passou!
-Todos são bons amigos,
Por seguirem esta Luz...
Muito carinho deles sentimos,
Neste Caminho que nos seduz...

-Este blog tem uma bolinha azul,ó tem, tem, tem......

-Querida Gota de Chuva,
Nossa boa companheira:
toma a bola que te mandamos,
entra nesta brincadeira!

-Um beijinho às amigas
E um abraço aos senhores,
Nesta quadra nos despedimos,
num sorriso de mil cores!!!
-Refrão:Este blog tem uma bolinha azul,ó tem, tem, tem......
-Gota de Chuva, agarra esta simpática bola azul! E abraça-a no Amor de Cristo, como fazes connosco! Com um bei-jo-
Numa bola Te embrulharam
E És o maior presente
Até na cor acertaram:
o azul deixa-me contente ;)

Vejo na bola o mundo,
e Senhor, vejo-Te no centro
Em cada nosso passo, curto ou longo,
Que estejas sempre bem dentro

Por Ti, nossos caminhos se haviam de cruzar
E agora neste Natal
Sabe tão bem fazer equipa e jogar
Com esta família de amigos virtual

Dos queridos PBP e AVC, a bola me foi enviada
E como queremos a estória continuar,
segue agora numa grande jogada
para a linda Joana também Te agarrar

J, passo-te esta bola com um beijinho e muito carinho, e sei que lhe vais dar o melhor caminho. ;)
Refrão:Este blog tem uma bolinha azul,ó tem, tem, tem......

Agarrei esta bolinha
Com ambas as mãos
Foi o presente de uma amiguinha
Que guardei no coração

Tudo começou na Malu
Que quis Dá-Lo a conhecer
Logo outros se seguiram
Para O receber

Gostava de puder contar tudo aquilo que Ele me diz
Mas o tempo é tão pouco e eu tenho que O Dar a Outro
Assim que o melhor que vos posso dizer
É que o seu Amor por nós, é o que nos faz “mexer”

Agora esta bolinha vai continuar o seu caminho
Vou passá-La à Maria João
Que tem um grande coração
Para Lhe dar um beijinho

Refrão:Este blog tem uma bolinha azul,ó tem, tem, tem......

Maria João, que tens um grande coração
Esta bolinha é para partilhar
porque o que é bom é Dar
Espero que O recebas com um grande abração.

Maria João, passo-te a bolinha com um grande beijinho, para que Partilhes com Outros, o Amor d´Ele por cada um de nós.

Saturday, December 16, 2006


Há dias em que me custa mais levantar da cama. O despertador toca, e eu nem o oiço, ou desligo-o sem dar por isso. Dias em que olho à minha volta, e a torrada com manteiga derretida não me sabe a nada, a roupa quente causa-me desconforto, e o beijo doce dela passa-me despercebido.
Dias em que me irrito por tudo e por nada, em que olho à minha volta e só vejo negativismo, e o pior é que me deixo envolver por ele.

Estive recentemente num desses dias, era uma segunda-feira, acordei indisposto, desliguei o despertador, deixei-me dormir. Tomei um óptimo pequeno almoço, mas a correr, dei-lhe o beijo do costume, e fui trabalhar. Apanhei trânsito, irritei-me, cheguei atrasado, chateei-me com colegas, gritei com empregados, almocei rapidamente, trabalhei sozinho durante toda a tarde, cheguei a casa cansado e triste, tinha passado um dia a correr e do qual não recordava nada de bom. O negativismo apoderou-se de mim, o desespero invadiu-me, há muitos dias assim, dias em que não sinto tanto a presença d´Ele, em que não O procuro, não O vejo, e não O sinto.
Dias em que não dou valor aquilo que Ele me dá, em que acordo de manhã e nem o cumprimento, em que não Lhe agradeço pelos alimentos que me oferece, em que não penso na importância daquele suave beijo, em que olho à minha volta e não vejo com os Olhos d ´Ele. Dias em que sou puramente pecador, em que me deixo invadir por medos e receios, em que me inibo, em que me fecho no meu mundinho, e me acho melhor que os outros, dias em que “atropelo” pessoas com o meu egoísmo, e magoo outras com a minha arrogância, dias em que abafo o optimismo e não Oiço a Sua Voz, porque só quero ouvir a minha e não deixo que o silêncio se faça, e no meio deste Ele se revele.

Nesses dias, paro por momentos e rezo.
Rezo muito, porque sei que preciso de Lhe falar, penso no que fiz, e peço-Lhe perdão, e dou-Lhe graças por tudo. Nessa altura, olho para o dia que passou e Vejo realmente a Sua presença, escondida, simples, e discreta na minha vida. Vejo o Seu Olhar, na senhora que me estendeu a mão a pedir ajuda junto ao banco, o Seu Sorriso no Senhor que me vendeu o jornal, a Sua bondade no meu colega, a Sua Sinceridade na minha mulher.

Rio-me com Ele dos meus comportamentos, peço-Lhe perdão pelas minhas fraquezas, e pelos meus defeitos, e vou apreendendo com Ele a caminhar aceitando as minhas limitações.

Nesses dias em que tudo corre menos bem, janto sossegado, por Lhe ter falado. E olho à minha volta com um novo Olhar, deixando-me guiar pelos Seus Olhos, pois nessa altura, já sou outro, porque em vez de ver defeitos e fraquezas, em vez de me deixar invadir pelo negativismo, deixo-me invadir pelo seu Amor.
E o meu olhar fica mais próximo da Verdade, e então tudo me é mais claro. Vejo realmente as qualidades que Ele nos deu, olho à minha volta e observo os que as põem a render, fico tão contente quando as encontro! A Bondade, a Humildade, a Sinceridade, o Amor, a Entrega, o Serviço, a Simpatia, o Altruísmo, o Empenho, o Respeito, a Generosidade, a Alegria, a Simplicidade, a Criatividade, e tantos outros. Que Deus, Nosso Pai, nos deu, e nos deixa usar. Mas essas qualidades, também se pedem, e se acolhem, porque não as temos todas, e só Ele nos dá esses Dons, como marcas do Seu Amor por nós.
E adormeço, agradeçendo-Lhe pelos talentos, que nos ofereceu, sabendo que no dia seguinte tudo será diferente porque irei apenas observar as qualidades que me fazem apreciar cada vez mais as pessoas. E o meu dia será fantástico, porque quando O deixamos estar ao nosso lado, e fazer parte do nosso dia, este corre sempre melhor.

Monday, December 11, 2006


Cheguei à porta de casa, rodei a chave lentamente, entrei. Pousei os sacos no chão e arrastei-me até ao quarto.
Sentei-me na beira da cama, e chorei em silêncio, chorei como já não me lembrava de chorar há muito tempo.
Mesmo sendo um choro silencioso, Ela ouviu e caminhou em pequenos passos até mim, apareceu ao meu lado e perguntou-me:
- Que se passa Joaquim?
Continuando a olhar para o chão, respondi-lhe:
-Estou triste. – E pus as mãos na cara.
Acariciou-me a cabeça, deu-me um doce beijo na testa e insistiu:
- Mas que se passa Joaquim? Que te perturba?
Demorei algum tempo a responder-lhe e no meio dos soluços disse-lhe:
- O mais estranho e estúpido é que não se passa nada.
-Joaquim, se não se passasse nada não estarias aqui a chorar…- respondeu-me com ternura.
- eu sei, mas – parei por momentos de falar, limpei as lágrimas que me enchiam o rosto com a palma das mãos e continuei – não aconteceu nada de diferente, foi um dia igual a todos os outros, acordei e fui para o Hospital fazer voluntariado, brinquei com os miúdos, li histórias, cantei, fizemos pinturas, corri com eles por entre as macas com os seus grandes companheiros a perseguirem-nos ou seja “ o soro “, e no meio de toda aquela brincadeira, igual às brincadeiras de tantos outros dias, encontrei uma menina que me fez pensar.
Senti a sua mão pousada no meu ombro, como que a incentivar-me a continuar, e fiz-lhe a vontade:
- Chama-se Bianca, não tem mais de um ano, estava na sua cama a brincar quando eu apareci, as enfermeiras disseram-me para ter cuidado, que era uma menina “ especial”, filha de uma senhora de alterne com HIV, tinha fibrose quistica* e tinha sido abandonada, estava ao encargo da santa casa da misericórdia. Não deixava ninguém tocar-lhe, e mordia com facilidade, era uma criança com um olhar triste.
Aproximei-me lentamente da sua cama, ao início estranhou e lançou-me um olhar furiosa, deitei-lhe a língua de fora, fiz montes de palhaçadas e ela continuava sem ceder, entretida num canto olhava para a parede e ignorava-me.
Continuei a fitá-la, fiz-lhe cócegas, escondi-me, mas nada, ela simplesmente nem olhava para mim.
Então, e apesar do olhar desconfiado das enfermeiras, agarrei-a por trás e coloquei-a rapidamente às minhas cavalitas, sentei-me no chão e finge que era um cavalo, percorri toda a sala com ela em cima de mim, a fazer as figuras mais ridículas de sempre, mas continuei, porque ouvi a sua gargalhada surgir, e após esta muitas outras surgiram, deitei-a na cama e beijei-lhe a barriga fiz-lhe cócegas com ela a ver, abracei-a, “atirei-a “ ao ar, pu-la ao meu colo, andei com ela por todo o lado, durante mais de duas horas, e as suas gargalhadas soaram por todo o corredor. As enfermeiras estavam de tal maneira chocadas que me pediram para lhe dar o jantar. Dei-lhe como se fosse minha filha, com muitos “ aviões “ e “barquinhos “ de colher à mistura, e apesar de ter ficado cheia de nódoas comeu tudo. E no fim adormeceu no meu colo, com um sorriso nos lábios e com a cabeça no meu ombro. Pousei a na cama e sai, não queria perturbar o sono daquele pequeno anjo.
Nesse momento parei e chorei.
- Porque choras? Não vejo motivo para chorares…- respondeu-me.
Ainda com lágrimas nos olhos respondi-lhe:
- Choro porque ao pousá-la na cama e vê-la sorrir senti um vazio dentro de mim, como se me tivessem tirado algo. Sai do hospital logo a seguir caminhei para o metro, e as lágrimas corriam me pela cara como se tivesse perdido alguém. Chorei de pena por aquela menina, porque sei que vai acordar sem ninguém ao seu lado, porque sei que é triste a situação que vive, porque olho para ela e sinto me mal, por ter a vida que tenho por me queixar tanto, quando comparado com ela nada me tenho a queixar.
Choro porque gostava de puder fazer algo por ela, e sei que nada posso fazer, choro porque como ela à milhares, choro porque me senti triste ao vê-la feliz, porque sei que não o é, porque vi nos seus olhos o reflexo da tristeza, porque sei que é uma pessoa doente e que dificilmente vai ser adoptada.
Tirou-me as mãos da cara e fez-me olha-la nos olhos, nesse momento sem que eu pudesse dizer algo mais respondeu:
- Não chores Joaquim, como ela à muitos mais nisso tens razão, mas vê o lado positivo das coisas apesar de não ter família ao menos deram-lhe a oportunidade de nascer, apesar de estar doente e de puder não vir a ser adoptada teve direito ao dom da vida, apesar de acordar e de não estares ao seu lado Ele estará sempre com ela e tu irás vê-la de vez em quando, e apesar de estar triste com o Amor que tu lhe dás irá passar a estar feliz. Sentes te mal por teres a vida que tens, por te sentires um sortudo em relação a ela, então torna-a sortuda e ajuda-a estando ao seu lado e apoiando-a, dá-lhe aquilo eu és, como hoje fizeste.
Podes te sentir triste e impotente face à situação dela, podes achar que fizeste tão pouco mas fizeste muito, sabes o que te diria a minha amiga Madre Teresa de Calcutá? – e sem que eu pudesse responder continuou: - “Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no mar.
Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota.” – Parou por momentos e prosseguiu:
- Vais ver que tudo se vai resolver, confia N´Ele, mesmo que não percebas, dar-lhe-ás o Seu Amor porque só este basta. Reza por ela Joaquim, para que cresça n Graça de Deus pede-lhe por ela, porque Ele diz “ pedi e recebereis “ e agradece, agradece por tudo o que Ele te dá.

Nesse momento olhei-a nos olhos e soube que era Maria, a minha mãe , que me falava, e abracei-a. Beijou-me a cara e sussurrou-me:
-Confia n´ Ele para que Seja feita a Sua vontade.

* doença genética, que provoca problemas digestivos graves e respiratórios, a esperança média de vida ronda os trinta anos.

Sunday, December 10, 2006


Chovia imenso como em qualquer dia de Inverno, entrei na sala encharcada e atrasada.
Sentei-me onde calhou, pousei as coisas e apontei tudo o que tinha perdido, como maneira de recuperar o tempo que tinha passado.
Dez minutos depois de ter entrado na sala, deram-me um bilhete simples de papel amarrotado, arrancado com desespero de um caderno. Abri-o com uma enorme surpresa. Estavam apenas duas linhas escritas com uma letra grossa e borrada:

Estou grávida
Espera por mim no fim da aula.

Não sabia que dizer, para um bilhete dizia demasiado. Eu era nova na turma por isso fiquei supreendida por alguém vir ter comigo, visto que eu conhecia mal as pessoas que me rodeavam, só falara com duas ou três , só entrava para ter duas aulas e ia para casa estudar.
Olhei à minha volta, para ver se conseguia detectar algum nervosismo no ar, alguém a olhar para mim, ou um sorriso triste. Mas ninguém olhou para mim, perguntei à pessoa que me deu o bilhete quem lhe tinha dado, e ela disse que lhe tinham posto na mochila e tinha o meu nome no verso.

A aula passou lentamente, não consegui parar de pensar na pessoa que precisava de falar comigo.
Esperei no meu lugar que alguém viesse ter comigo, o intervalo já estava a meio quando ela apareceu.
Era a rapariga mais popular daquela turma, magra e alta, cabelo arranjado como se viesse de uma festa, maneira de vestir arrojada. Corada e nitidamente preocupada sentou-se ao meu lado. Conhecia a de “olá e adeus” já tínhamos falado pelo menos três vezes mas todavia não éramos amigas.
Perguntei-lhe:
- Porque vieste ter comigo? o que escreveste é verdade ?- respondeu-me logo de seguida.
- Eu sei que não me conheces muito bem , mas sei que és das únicas pessoas que me podes ajudar.
- Que posso fazer por ti? – perguntei surpreendida. Parecia uma história de loucos, ela mal me conhece, e ainda quer que eu a ajude - Pensei.
-Acho que estou grávida, que posso fazer para sabê-lo? – perguntou.
- Vai à farmácia e faz o teste de gravidez - respondi naturalmente.
Respirou fundo e disse-me:
- Ninguém sabe disto...
- Eu sei que não tenho nada haver com isso – disse e continuei- mas, tens que me contar mais ou menos as coisas, não quero pormenores, é que se não me contares eu não sei do que estás a falar…
- Não me aparece à dois meses – respondeu
- Isso não quer dizer que estejas grávida- ripostei.
- Não mas … dormi com uma pessoa . – disse–me
- É teu namorado?
- Não.
- Então dormes com uma pessoa que nem namoras? – perguntei chocada.
- Bem íamos andar…
- Não te percebo mas a tua intimidade é algo que deixas que todos tenham acesso?
- Não mas íamos andar… - respondeu me secamente
- Sim claro… usaste algum método contraceptivo?
- Não….
- Não??! Mas vives em que século? Sabes a quantida de doenças que podes apanhar? – perguntei mais que chocada.
- Eu estava bêbada e ele também.
- Ainda para mais… desculpa mas vocês são uns irresponsáveis! - disse-lhe irritada.
- Eu sei, mas não volta a acontecer.- respondeu me e olhou para mim em desespero, eu sem saber o que lhe dizer respondi:
- Vai fazer o teste e depois diz me qualquer coisa, manda me uma mensagem, tens aqui o meu número.- respondi chateada pelas respostas que me tinha dado.
- Por favor não digas a ninguém.- sussurrou.
- Claro que não.- respondi

Sai da sala a pensar. Caminhava no meio das poças quando me lembrei d ´Ele.
Falei com Ele e disse-lhe:
-Eu sei que não sou ninguém para a julgar , mas há o minimo ... Sabes como eu sou em relação a essas coisas cada vez acho que as pessoas tem menos valores, não tem princípios, desde quando é que se dorme bêbada com alguém que mal se conhce?
E no instante em que O questionei lembrei-me da frase:
" Quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra" Jo 8, 1-11
Soube então que não a devia julgar, quem era eu para a julgar? Eu que era tão pecadora ou mais que ela? Os pecados não são mensuráveis.

As questões surgiam na minha cabeça, tinha tanto em que pensar. Porque é que me contou tudo isto? Será que queria falar com Ele e não comigo?
Pedi-Lhe perdão por a ter julgado mesmo que inconscientemente, porque devia era falar com ela e tentar perceber o que se passava e o que podia fazer para ajudá-la, tal como Ele faria no meu lugar.

Nessa mesma tarde, recebi uma mensagem, dizia que o teste tinha dado positivo. Liguei-lhe, choramingava. Tentei acalma-la e dizer lhe que devia contar aos pais, recusava-se a fazê-lo visto que os pais achavam que ela era uma miúda de dezoito anos típica, que saia à noite com amigos, que se vestia bem, e que nunca tinha tido namorado.
Como podia ela dizer aos pais, que esta já não era a primeira vez que fazia o que tinha feito? Como podia dizer aos pais que estava grávida de um rapaz bastante mais velho e que estavam bêbados naquela noite? Ela que os pais julgavam que nunca bebia… Fiquei perplexa, será que aqueles pais conheciam a filha que tinham?
Pedi-lhe que nos encontrássemos, mas ela queria ir ter com o pai da criança que tinha no ventre, o que era compreensível.

Rezei muito naquela noite, pedi-Lhe que me ajudasse a falar-lhe como Ele me fala.
Pedi-Lhe que estivesse com ela, que a fizesse confiar n´Ele, e que tomasse a decisão certa, receava que ela fosse pelo o caminho mais fácil, que eu sabia não ser o caminho certo para aquele bebé.
Lembrei-me de Maria, e das suas palavras ao Anjo: " Eis a Serva do Senhor, faça-se em mim Segundo a Tua Palavra" Lc 1 38-39, e pedi-Lhe, que lhe desse a força para confiar N´Ele como Maria, sem medos, aceitando a vida daquele bébé.

No dia seguinte encontrei a na escola, com o ar mais natural do mundo fumava o quarto cigarro às dez para as oito da manhã. Fez-me sinal para não falar sobre nada, e ouvi a sua conversa banal com as amigas de longa data.
Senti-me estranha ao observá-las, saberia alguém que ela tinha um bebé dentro de si?
No fim das aulas falei com ela, expliquei-lhe o que achava, disse lhe o que Ele me dizia, e depois de muito falar ela respondeu-me:
- Não posso. Nem quero. Eu sei que tens razão fui uma irresponsável, mas se eu o tiver agora tenho a vida estragada. Além disso os meus pais não sabem nem sonham, nem podem saber!
Fiquei furiosa, ela queria fazer um aborto, discuti, tentei persuadi-la, mas nada… ela já tinha tomado a decisão.
- E o que acha o Pai da criança? – disse-lhe eu.
- Ele diz que eu é que sei, a barriga é minha, além disso, isto ainda nem é um bébé- disse e continuou - hoje vou a um ginecologista, depois logo vejo quando o faço.
Ainda tentei explicar-lhe porque é que não o devia fazer, mas já nem me ouvia, falei-lhe de associações que lhe podiam ajudar, pedi-lhe para ao menos falar com algum familiar, abanava a cabeça e já decidida disse-me:
- Não o quero, para mim isto não é um bébé, não percebes? Não é nada! - disse -me irritada.
Triste e desolada, caminhei para casa tropeçando nas minhas próprias lágrimas de fraqueza como é que se pode dizer que não a um filho? Para mim a vida é um dom de Deus e mesmo que não fosse desejado ou esperado, eu dava-lhe a oportunidade de viver, continuei a pensar no que faria eu na situação dela e tive a certeza que tinha aquele bébé, sim porque para mim já era um bébé, embora pequenino, embora ainda não passasse de um embrião, mas todos já fomos embriões faz parte do nosso crescimento enquanto humanos. Se não fosse um bébé então ela não estaria grávida estaria doente ou algo do género, mas a palavra grávida significa estar à espera de bébé. Pedi-Lhe perdão por não ter sido capaz de a ajudar, perguntei-Lhe que devia fazer, ligar aos pais dela e avisar? Mas eu nem tinha o seu número de casa! Falar com amigas? Mas ninguém me conhecia e achei que não era correcto espalhar algo tão intimo só para a “obrigar”a pensar.

Os dias passaram e eu rezei por aquele bebé, várias vezes discuti com ela aquele assunto, mas ela não nunca cedeu. Foi ao ginecologista e este deu-lhe o contacto de uma clínica em Espanha, três semanas depois, foi a essa clínica com o Pai da criança e duas amigas, disse aos pais que ia passar o fim de semana a casa da melhor amiga. O aborto foi assim feito, já ela estava grávida de três meses, por aspiração.

Quando regressou, veio ao meu encontro, eu nada lhe tinha perguntado, mas ela disse-me que antes de o fazer já não queria, porque tinha medo, mas que a agarraram e o fizeram, e segundo ela “ ainda bem que assim foi”, depois foi encaminhada para uma psicóloga, que lhe disse para não se dar com pessoas como eu, que era assim que ficava traumatizada.

Cheguei a casa desfeita, não tinha sido capaz, porquê? Questionei? a única altura que podia ter “salvo “ um bebé não o fiz, chorei de dor, e de tristeza. Só pensava naquele bebé, que já era um bebé, e que mesmo sendo tão pequenino merecia viver, mas que não o deixaram...

Senti o seu abraço envolver-me com Amor, disse-me que eu tinha feito tudo o que podia, que a culpa não era minha, que a decisão de o fazer não tinha sido minha e que rezasse não só pelo bebé mas também por aquele rapariga.

Rezar por ela? Ela que o matou, ela que é egoísta e que só faz disparates e que não assume o que faz? Ela que foi ao meu encontro para no fundo dizer me que vai fazer um aborto e que eu nada posso fazer para a impedir?

Sim por ela, porque ela precisa, que o Espírito Santo a ilumine e lhe dê força. Não te lembras que é importante amar mesmo os que nos viram a cara, pedir pelos nossos inimigos, pedir pelos que achas que não merecem? É verdade pede por Ela, porque Ela é a que mais precisa da tua oração.

E assim foi e ainda hoje, rezo por ela, porque sei que Ele aos poucos vai entrando dentro dela, e vai se revelando como faz em cada um de nós, e mesmo que ainda não o sinta, o Amor dele vai envolve-la e ela vai ficar tão surpreendida e tocada por esse Amor sem limites que Lhe vai pedir ajuda e Ele vai perdoa-la e levá-la ao colo como faz com cada um de nós.

Saturday, December 02, 2006


Apanhei o autocarro dez minutos antes do costume, tinha me levantado mais cedo do que era costume, contudo não tinha sono, vinha meia pensativa a caminhar pelo interior deste veiculo, quando um senhor se levantou para sair, gentilmente ocupei lhe o lugar. Era junto à janela como eu gosto, porque assim faço toda a viagem com uma mão no bolso a segurar no terço, e outra pousada no colo, vou com os olhos sempre postos na janela e vou agradecendo a Deus pelo dia, pelas pessoas, pelo que me rodeia, pela vida.

Não sei quanto tempo passou desde o momento em que me sentei, perdida em pensamentos com o Senhor, e o momento em que Ela chegou.
Era bastante mais velha do que eu, devia ter quase trinta anos, alta e de cabelo apanhado loiro, rosto ligeiramente pintado, um olhar muito bonito e um sorriso triste.
Muito calada, sentou-se ao meu lado e com as mãos suadas tocava constantemente na cadeira da frente como se estivesse a tocar piano.
Ficamos ambas em silêncio durante alguns minutos, eu em oração, e ela pensativa.
Até que o silêncio foi quebrado pela sua doce voz, que se dirigiu a mim como se já me conhecesse há imenso tempo:
- Estou cheia de problemas…- disse. A sua voz tremia devido ao nervosismo. Calou-se repentinamente e parecia esperar pela minha resposta. Eu olhei-a nos olhos sem saber que lhe dizer, visto que não a conhecia e ainda para mais, a conversa tinha sido iniciada do “ nada “ e sem um “ olá “, ou um “ bom dia “. Mas apesar da minha perplexidade ela continuou como se falando sozinha:
- Estou super stressada não sei se vou ser despedida do meu terceiro emprego em dois meses, um amigo meu morreu à dois dias, a minha irmã está internada com Pneumonia e o meu namorado com quem tinha uma relação à onze anos acabou esta semana comigo e já está a namorar com outra….- afirmou sem pausas. Eu ainda meia atordoada com tanta informação continuei a olhá-la nos olhos, com um ar meio aparvalhado.
Ela calou-se, as lágrimas ao contrário do que eu esperava não lhe invadiram os olhos ,mas apenas se viam dentro dela, escorrendo espessas, grossas sempre a verter no seu interior, sem parar, inundando tristeza.
Não fiquei mais de um minuto em silêncio, tinha que falar com Ela.
- Calma, eu sei que te deves sentir mal, mas vais ver que vai tudo correr bem, confia.
Tantas vezes olhamos à nossa volta e vemos a vida como um beco sem saída, mas tens que olhar melhor tens que olhar com os Olhos de Cristo, tens que fazer do sofrimento, da dor, da tristeza, Amor, Entrega, Alegria. Porque a vida é muito mais do que nós pensamos, a vida que nos foi dada por Deus, é um dom, é algo fantástico que nós simples seres humanos limitados, distorcemos e não compreendemos.

Calei me repentinamente como que espantada com tudo o que tinha dito, e rapidamente retomei:

- Vamos ver cada caso: o teu emprego, não sei que fazes, nem sei se vais ser despedida mas independentemente do que acontecer, tens que ver o lado positivo, porque mesmo tendo tido vários empregos vais ganhando experiência, e mesmo que muitas vezes nada te faça sentido, vais ver que mais tarde fará. Quanto ao teu amigo, tenho muita pena que tenha morrido, mas tens que aceitar a morte como parte da vida, quando nos morre alguém querido custa-nos porque não a compreendemos, por não sabermos o que acontece por termos medo, mas Jesus ressuscitou, e mostrou-nos que a morte não é o fim, temos que ter Fé, e se não a temos, devemos pedi-la porque a Fé pede-se cultiva-se e cresce com o Amor de Deus.
A tua irmã está internada com Pneumonia, reza por ela e pede ao Senhor que a salve se tiver alguma Missão para ela, senão que a leve para junto d´Ele para que fique envolvida no seu Amor. Sei que é um pedido difícil, mas é o que eu faço.
Relativamente ao teu namorado, tens que ser realista, se já está a namorar com outra, na minha opinião, e por mais anos que tenhas namorado com ele, e por mais que te custe tens que partir para outra, porque uma relação de tantos anos na minha sincera opinião, não se acaba de um momento para o outro e muito menos se recomeça outra logo a seguir, assim que se isso aconteceu e se não encontras explicação para isso, reza e Entrega a Deus as tuas preocupações partilha com Ele a tua vida, porque Ele vai te ajudar.

- Mas isso é o que faço, eu peço-Lhe um sinal, que Ele nunca me dá.- respondeu–me amargamente.

-Não podes pedir sinais, poque Ele dá, só que nós não os vemos, somos piores que os cegos, porque não queremos ver, Ele fala-te por palavras, por Gestos, por acções, Ele Fala-te no silêncio, na brisa nas pessoas, tens que estar atenta e Ouvir o que Ele tem para te dizer.
E se te sentires desesperada ou triste – e quando ia acabar a frase ela abanou a cabeça como que concordando com o que eu dizia., então prossegui:

- Bem quando eu me sinto desesperada ou triste penso em três coisas: Primeiro tenho a certeza que os meus problemazinhos comparados com os de muito boa gente são insignificantes, os meus problemazinhos, comparados com a criança órfã e com Sida que trabalha e que não sabe o que não é ter fome, não são nada! Sei que pode parecer extremista e horrível comparar-me com os que estão pior, mas acho que é assim que se deve fazer olhar para os outros e ver que há tantos que estão tão mal e estamos nós a queixarmo-nos, temos é que ajudá-los e temos que perceber o quanto insignificantes são os nossos problemas, portanto toca a desvalorizar e a arranjar soluções porque tudo tem solução, segundo lembro-me da frase “ Quando se fecha uma porta, Deus abre-nos uma janela “ , e terceiro faço uma reflexão para perceber se o que não correu bem, se foi por eu não ter deixado Deus participar nas minhas escolhas e ter vivido para mim, ou se foi quando eu estava a viver para Ele, que elas simplesmente aconteceram. E então aí percebo, se eu estava a viver para mim, passo a viver para Deus, porque só assim vou alcançar a felicidade, vou passar a querer que os outros tenham mais, vou passar a querer servir vou sair do meu mundinho e perceber que o meu umbigo não é o que me rodeia. Se eu estava a viver para Deus mas as coisas não correram como eu esperava, fico triste mas procuro perceber em que parte é que me afastei da vontade D´Ele e com humildade aceito que errei e recomeço dando-Lhe a mão com força para que juntos caminhemos de novo.

Fiquei supreendida quando a minha boca se fechou, só senti o forte abraço que me deu envolver-me. Levantou-se e agradeceu-me a chorar, ouvi os seus passos ao longe e fiquei a pensar que nem sabia o seu nome.

Passaram muitos anos desde esse encontro no autocarro, nesse dia fiquei pensativa e confusa tinha a tratado por “tu “ sem a conhecer e tinha-lhe falado D´Ele sem saber se acreditava.
Já não era a primeira vez que isto me acontecia. Ainda hoje vem ter comigo pessoas que nunca vi na vida e contam-me coisas íntimas, preocupações desejos, tristezas e alegrias. Partilham a sua vida, e se eu antes não compreendia e só me questionava “ porquê? “ , hoje sei que querem falar com Ele, sei vem ao meu encontro porque Ele Lhes fala através de cada um de nós, também, na altura não compreendia como é que eu que nem sequer tinha jeito para falar com as pessoas, que sou tímida, e que coro com facilidade, como é que proferia com tanta certeza frases tão belas e tão lógicas, mas hoje sei que é o Espírito Santo que me invade e que me faz dizer-lhes o que Ele me diz, que me faz sentir a Sua presença em mim, e que me fazer transbordar de Fé para os outros, servindo-os com o Seu Amor.

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